As luzes apagaram e o clima ficou pesado. O Theatro Municipal do Rio de Janeiro, aquele mesmo que já tinha recebido Caruso e Sarah Bernhardt, estava lotado para a estreia de um rapaz de 31 anos, jornalista de profissão, chamado Nelson Falcão Rodrigues. Os jornais vinham publicando críticas antecipadas, elogiando o texto como algo inédito, mas a plateia não fazia ideia do que estava prestes a ver. Um crítico tinha chamado aquilo de "uma experiência sem paralelo no teatro brasileiro". Outro avisou que seria difícil. Ninguém, porém, disse o óbvio: que o teatro brasileiro ia terminar ali e recomeçar como outra coisa.
O cenário de Tomás Santa Rosa ocupava o palco em três andares verticais. Em cima, a realidade crua: uma mesa de cirurgia, médicos e enfermeiras trabalhando em silêncio. No meio, a memória de Alaíde, a protagonista atropelada na rua, com a consciência vagando enquanto o corpo sangrava. Embaixo, a alucinação. Alaíde conversava com Madame Clessi, uma cocote de 1905 assassinada pelo amante, figura que só conhecia pelo diário achado na casa onde morou. Cortes bruscos de luz, executados por Ziembinski com precisão cirúrgica, separavam esses mundos. Antes daquilo, nada parecido tinha existido no Brasil. Em português, talvez em lugar nenhum.
O público ficou em choque. A recepção do primeiro ato foi fria, poucos aplausos, muito murmúrio, aquele desconforto de quem não sabe se acabou de ver uma genialidade ou um absurdo. O segundo ato começou e o silêncio pesou mais. Quando Alaíde morreu na cirurgia e Madame Clessi a recebeu do outro lado dizendo "você está morta, minha filha", o teatro ficou mudo por alguns segundos que os presentes jurariam, décadas depois, ter sido os mais longos da vida. Aí os aplausos começaram. Cresceram. Viraram uma ovação de mais de vinte minutos, com a plateia em pé.
Nelson assistia de um camarote. Segundo ele mesmo contou anos depois nas memórias publicadas em O Reacionário, ficou tão atônito que travou. O produtor teve que ir buscá-lo. Estava lá, imóvel, olhos úmidos. Quando finalmente pisou no palco, a plateia estava tão absorta que muita gente nem notou sua presença. Ele diria que se sentiu "um marginal da própria glória", frase que viraria mantra para a geração seguinte de dramaturgos.
O espaço físico que a montagem exigia era absurdo. Ziembinski tinha puxado ensaios de uma intensidade inédita. Os atores, em sua maioria amadores do grupo Os Comediantes, cumpriam oito horas diárias no último mês, muitas vezes madrugada adentro, porque o Municipal só sobrava depois do funcionamento normal. O polonês de sotaque carregado que mandava refazer a mesma cena pela décima vez às duas da manhã era visto por alguns como um tirano. Por todos, anos mais tarde, como o único capaz de fazer aquilo acontecer.
A crítica do dia seguinte foi quase unânime no elogio, com uma ressalva: o texto era "avançado demais" para o público médio. Álvaro Lins, o crítico mais influente do Rio, escreveu que a peça representava "uma conquista definitiva do modernismo para o teatro". Outro, no Correio da Manhã, afirmou que o teatro brasileiro tinha "dado um salto de duas décadas numa única noite". Décio de Almeida Prado, que viraria o principal historiador do teatro moderno, diria anos depois que Vestido de Noiva chegou ao Brasil com exatos 21 anos de atraso em relação à Semana de 22. Mesmo atrasada, a chegada foi tão violenta que a data da estreia passou a ser a única que importava.
Nelson escreveu a peça em seis dias. Ziembinski ensaiou com o elenco por oito meses. O teatro brasileiro nunca mais foi o mesmo.
A plateia chamava o autor, mas o autor não estava ali para eles. Estava ali para mim, e eu não sabia o que fazer com aquilo. A glória, quando chega de supetão, tem esse gosto de deslocamento. Eu me sentia um marginal da própria glória.
— Nelson Rodrigues, O Reacionário (Memórias)
VESTIDO DE NOIVA
Ziembinski relatou que, ao ler o texto pela primeira vez, declarou: "Não conheço nada no teatro mundial que se pareça com isso". A peça foi escrita em seis dias e ensaiada por oito meses, com sessões que se estendiam pelas madrugadas no Municipal porque era o único horário livre. Os atores eram amadores. A noite de 28 de dezembro de 1943 foi descrita por Décio de Almeida Prado como o ponto zero do teatro moderno brasileiro.