— Rio de Janeiro

A Noite que Partiu o Teatro em Dois

A estreia de Vestido de Noiva e o que o público viu

As luzes apagaram e o clima ficou pesado. O Theatro Municipal do Rio de Janeiro, aquele mesmo que já tinha recebido Caruso e Sarah Bernhardt, estava lotado para a estreia de um rapaz de 31 anos, jornalista de profissão, chamado Nelson Falcão Rodrigues. Os jornais vinham publicando críticas antecipadas, elogiando o texto como algo inédito, mas a plateia não fazia ideia do que estava prestes a ver. Um crítico tinha chamado aquilo de "uma experiência sem paralelo no teatro brasileiro". Outro avisou que seria difícil. Ninguém, porém, disse o óbvio: que o teatro brasileiro ia terminar ali e recomeçar como outra coisa.

O cenário de Tomás Santa Rosa ocupava o palco em três andares verticais. Em cima, a realidade crua: uma mesa de cirurgia, médicos e enfermeiras trabalhando em silêncio. No meio, a memória de Alaíde, a protagonista atropelada na rua, com a consciência vagando enquanto o corpo sangrava. Embaixo, a alucinação. Alaíde conversava com Madame Clessi, uma cocote de 1905 assassinada pelo amante, figura que só conhecia pelo diário achado na casa onde morou. Cortes bruscos de luz, executados por Ziembinski com precisão cirúrgica, separavam esses mundos. Antes daquilo, nada parecido tinha existido no Brasil. Em português, talvez em lugar nenhum.

O público ficou em choque. A recepção do primeiro ato foi fria, poucos aplausos, muito murmúrio, aquele desconforto de quem não sabe se acabou de ver uma genialidade ou um absurdo. O segundo ato começou e o silêncio pesou mais. Quando Alaíde morreu na cirurgia e Madame Clessi a recebeu do outro lado dizendo "você está morta, minha filha", o teatro ficou mudo por alguns segundos que os presentes jurariam, décadas depois, ter sido os mais longos da vida. Aí os aplausos começaram. Cresceram. Viraram uma ovação de mais de vinte minutos, com a plateia em pé.

Nelson assistia de um camarote. Segundo ele mesmo contou anos depois nas memórias publicadas em O Reacionário, ficou tão atônito que travou. O produtor teve que ir buscá-lo. Estava lá, imóvel, olhos úmidos. Quando finalmente pisou no palco, a plateia estava tão absorta que muita gente nem notou sua presença. Ele diria que se sentiu "um marginal da própria glória", frase que viraria mantra para a geração seguinte de dramaturgos.

O espaço físico que a montagem exigia era absurdo. Ziembinski tinha puxado ensaios de uma intensidade inédita. Os atores, em sua maioria amadores do grupo Os Comediantes, cumpriam oito horas diárias no último mês, muitas vezes madrugada adentro, porque o Municipal só sobrava depois do funcionamento normal. O polonês de sotaque carregado que mandava refazer a mesma cena pela décima vez às duas da manhã era visto por alguns como um tirano. Por todos, anos mais tarde, como o único capaz de fazer aquilo acontecer.

A crítica do dia seguinte foi quase unânime no elogio, com uma ressalva: o texto era "avançado demais" para o público médio. Álvaro Lins, o crítico mais influente do Rio, escreveu que a peça representava "uma conquista definitiva do modernismo para o teatro". Outro, no Correio da Manhã, afirmou que o teatro brasileiro tinha "dado um salto de duas décadas numa única noite". Décio de Almeida Prado, que viraria o principal historiador do teatro moderno, diria anos depois que Vestido de Noiva chegou ao Brasil com exatos 21 anos de atraso em relação à Semana de 22. Mesmo atrasada, a chegada foi tão violenta que a data da estreia passou a ser a única que importava.

Nelson escreveu a peça em seis dias. Ziembinski ensaiou com o elenco por oito meses. O teatro brasileiro nunca mais foi o mesmo.

A plateia chamava o autor, mas o autor não estava ali para eles. Estava ali para mim, e eu não sabia o que fazer com aquilo. A glória, quando chega de supetão, tem esse gosto de deslocamento. Eu me sentia um marginal da própria glória.

— Nelson Rodrigues, O Reacionário (Memórias)
Espetáculo — Marco Fundador do Teatro Moderno Brasileiro

VESTIDO DE NOIVA

DramaturgoNelson Rodrigues (1912–1980)
DireçãoZbigniew Ziembinski
CenografiaTomás Santa Rosa — "arquitetura cênica" em três planos verticais simultâneos
CompanhiaOs Comediantes (grupo amador carioca, fundado em 1938)
LocalTheatro Municipal do Rio de Janeiro — espaço cedido pelo ministro Gustavo Capanema
ElencoLina Grey (Alaíde), Auristela Araújo (Mme. Clessi), Stella Perry (Lúcia), Carlos Perry (Pedro)
EnredoAlaíde é atropelada na rua e levada ao hospital. Em três planos simultâneos — realidade (cirurgia), memória (triângulo amoroso com o marido e a irmã Lúcia) e alucinação (diálogo com a cocote Mme. Clessi) — a peça reconstitui a vida interior de uma mulher enquanto ela morre
InovaçãoPrimeiro uso de planos simultâneos no teatro brasileiro. Recurso do flashback, até então exclusivo do cinema. Expressionismo alemão aplicado à dramaturgia nacional

Ziembinski relatou que, ao ler o texto pela primeira vez, declarou: "Não conheço nada no teatro mundial que se pareça com isso". A peça foi escrita em seis dias e ensaiada por oito meses, com sessões que se estendiam pelas madrugadas no Municipal porque era o único horário livre. Os atores eram amadores. A noite de 28 de dezembro de 1943 foi descrita por Décio de Almeida Prado como o ponto zero do teatro moderno brasileiro.

O dinheiro para a estreia de Vestido de Noiva saiu de onde menos se esperava: o Ministério da Educação do governo Getúlio Vargas, pelas mãos de Gustavo Capanema. O Estado Novo, aquele regime que censurava jornais e prendia opositores, cedeu o Theatro Municipal para uma peça sobre o inconsciente freudiano e os desejos proibidos de uma mulher. Capanema tinha ouvido os murmúrios sobre a "modernidade" do texto e resolveu apostar. A ironia é daquelas que a história adora: a ditadura brasileira, só naquela noite, bancou sem querer a revolução estética mais radical do teatro nacional.
, Cracóvia — , Lisboa

Zbigniew Ziembinski

O exilado que trouxe o expressionismo alemão para o palco brasileiro

Em 1941, um ator e diretor polonês chamado Zbigniew Ziembinski desembarcou no Rio de Janeiro com poucos pertences, um sotaque que os cariocas achavam "bárbaro" e a memória de uma Europa sendo destruída. Judeu, tinha saído da Polônia quando a invasão alemã tornou a estadia impossível. Fez as malas, cruzou a França e a Espanha, e acabou no Brasil. O país não era o destino, era a última porta de saída.

Sua formação em Varsóvia o colocou em contato com diretores que bebiam da fonte de Vsevolod Meyerhold, o encenador russo que dinamitou o naturalismo do palco para colocar no lugar uma linguagem física, ritualística e expressionista, antes de ser fuzilado por Stálin em 1940. Além disso, conhecia de perto o expressionismo alemão, suas luzes distorcidas, suas sombras longas, atores se movendo como figuras de Ernst Ludwig Kirchner. Tinha estudado os espetáculos de escala monumental de Max Reinhardt. Chegar ao Brasil com tudo isso na cabeça e dar de cara com um teatro que ainda operava nas convenções do século XIX deve ter sido um choque.

O grupo que o acolheu, Os Comediantes, reunia intelectuais e artistas amadores cariocas que faziam teatro sério sem se preocupar com bilheteria. Receberam Ziembinski com aquela mistura de entusiasmo e desconfiança que o exilado europeu sempre inspira. Ele sabia coisas que eles não sabiam. Eles sabiam o Brasil, a língua, a cabeça do público local, coisas que ele levaria anos para pegar. A parceria funcionou justamente porque a assimetria era dupla.

Quando o texto de Vestido de Noiva caiu nas mãos de Ziembinski, via Santa Rosa, o polonês leu o primeiro ato num dia, o segundo no outro, o terceiro no dia seguinte. Ainda não podia brincar com a língua. Ao terminar, soltou num português carregado: "Grande peça." E começou a preparar uma montagem que consumiria oito meses e toda a sua capacidade técnica.

O que Ziembinski trouxe não era só um conjunto de técnicas. Era uma filosofia do que o palco podia ser. Nos palcos europeus que ele conhecia, o diretor era autor do espetáculo tanto quanto o dramaturgo era autor do texto. A iluminação virou dramaturgia pura. O movimento dos atores passou a expressar estados internos, abandonando o realismo. "Ziembinski tinha obsessão pela luz exata", diria Nelson Rodrigues décadas depois. A luz de Vestido de Noiva, com seus cortes bruscos entre os três planos, os claro-escuros que faziam a alucinação parecer pesadelo, a brancura clínica da sala de cirurgia contrastando com a penumbra do bordel de 1905, era uma criação dramatúrgica em si mesma.

Depois de Vestido de Noiva, Ziembinski virou a figura mais cobiçada do teatro brasileiro. Trabalhou com o TBC em São Paulo, dirigiu Nelson Rodrigues várias vezes (Anjo Negro em 1948, Dorotéia em 1950, Toda Nudez Será Castigada em 1965) e formou atores que puxariam outras gerações. Cacilda Becker dizia que aprendeu o que era direção trabalhando com ele. Fernanda Montenegro descreveria as aulas de Ziembinski como as mais rigorosas e transformadoras de sua formação. Antunes Filho, que se tornaria um dos maiores diretores do país, assistia às montagens com a atenção de quem estuda um idioma novo.

Em 1978, Ziembinski morreu em Lisboa. Tinha passado os últimos anos dividindo-se entre Brasil e Portugal, trabalhando nos dois países com a mesma intensidade de sempre. Não deixou família, nem bens materiais significativos, nem herdeiros diretos. Deixou uma linguagem que plantou num país alheio e que floresceu por décadas depois que ele se foi.

Zbigniew Ziembinski

, Cracóvia, Polônia — , Lisboa, Portugal

FormaçãoAtor e diretor em Varsóvia; influenciado pelo expressionismo alemão, por Meyerhold e por Max Reinhardt
Chegada ao Brasil1941 — exilado judeu fugindo da Segunda Guerra Mundial; acolhido pelo grupo Os Comediantes no Rio de Janeiro
ContribuiçãoIntroduziu o conceito de diretor como autor do espetáculo; o uso dramatúrgico da iluminação; a valorização do trabalho de grupo em detrimento do ator-estrela
Obras no BrasilVestido de Noiva (1943), Anjo Negro (1948), Dorotéia (1950), Volpone no TBC (1955), Maria Stuart (1955), Toda Nudez Será Castigada (1965), entre dezenas de outras
LegadoFormou atores como Cacilda Becker; influenciou diretamente Antunes Filho, Fernanda Montenegro e toda uma geração do teatro brasileiro
, Recife — , Rio de Janeiro

Nelson Rodrigues

O maior dramaturgo do teatro brasileiro e a tragédia que o criou

Nelson Falcão Rodrigues nasceu em 23 de agosto de 1912, em Recife. Era o quinto de quatorze filhos. O pai, Mário Rodrigues, jornalista e ex-deputado estadual, tinha sido expulso de Pernambuco por inimigos políticos e mudou-se para o Rio de Janeiro em 1916 com a família toda. Nelson tinha quatro anos. No Rio, Mário fundou primeiro o jornal A Manhã, que perdeu para um sócio, e depois o Crítica. Nelson começou a trabalhar como repórter policial no jornal do pai aos treze anos de idade, usando calças compridas para impor respeito aos colegas mais velhos. Na época, repórter policial era a estrela mais cobiçada de qualquer redação.

No dia 26 de dezembro de 1929, uma mulher chamada Sylvia Serafim entrou na redação do Crítica procurando o diretor. O jornal tinha publicado os detalhes de seu desquite, incluindo a acusação de adultério, numa reportagem de Orestes Barbosa com ilustrações de Roberto Rodrigues, irmão de Nelson. Sylvia tinha comprado uma arma naquela manhã. Mário Rodrigues não estava. Mário Filho, o irmão mais velho, também não. Só estava Roberto, que tinha 23 anos, era ilustrador e era considerado pela família o gênio absoluto da geração. Sylvia atirou. Roberto levou um tiro no abdômen e morreu três dias depois, em 29 de dezembro. Nelson tinha 17 anos e estava na redação.

O pai, consumido pelo luto e pela culpa de o filho ter morrido no lugar dele, se entregou à bebida e morreu de trombose cerebral 67 dias depois do assassinato de Roberto, em março de 1930. A gráfica e a redação do Crítica foram empasteladas e destruídas pelos seguidores de Getúlio Vargas durante a Revolução de 30. A família Rodrigues, que tinha sido próspera, mergulhou na miséria. Nos anos seguintes, Nelson descreveria essa época como "uma fome que só tem equivalente nos retirantes de Portinari". Em 1934, com o organismo debilitado por anos de privação, contraiu tuberculose aos 22 anos e foi internado no Sanatório Popular de Campos do Jordão, onde ficou catorze meses. Em 1937, seu irmão Joffre morreu de tuberculose aos 21 anos. Nelson passou o resto da vida convicto de ter sido o transmissor da doença.

Esse acúmulo de mortes e traumas não é contexto biográfico acidental. É o núcleo gerador da obra. Quando Nelson criou, ao longo de 36 anos de dramaturgia, seu universo de mulheres que desejam o que não podem ter, homens que destroem o que amam e famílias que se devoram por dentro com a mesma intimidade com que respiram, ele estava destilando o que tinha visto na juventude: a violência doméstica como condição natural do amor, a morte como presença rotineira, o desejo como força que destrói quem não o reconhece. A diferença entre Nelson e qualquer outro dramaturgo que tentou temas parecidos é que ele não precisava inventar o horror. Ele tinha visto de perto.

De vez em quando, antes de dormir, começo a me lembrar. 26 de dezembro de 1929. E as coisas tomam uma nitidez desesperadora. A memória deixa de ser a intermediária entre mim e o fato, entre mim e as pessoas.

— Nelson Rodrigues, O Reacionário — sobre o assassinato do irmão Roberto

A dramaturgia de Nelson é dividida pelos estudiosos, com Sábato Magaldi à frente, em três fases. A primeira reúne as peças psicológicas, como A Mulher Sem Pecado (1941) e Vestido de Noiva (1943). A segunda agrupa as peças míticas: Álbum de Família (1946), Anjo Negro (1946), Dorotéia (1950), A Senhora dos Afogados (1947) e Viúva, Porém Honesta (1957). São peças de estrutura épica e arcaica, evocando a tragédia grega e o mito freudiano com um naturalismo que o próprio Nelson chamava de "teatro desagradável". Por fim, as tragédias cariocas, o conjunto mais popular: A Falecida (1953), Boca de Ouro (1959), O Beijo no Asfalto (1961), Bonitinha mas Ordinária (1962) e O Casamento (1966). Peças de subúrbio, personagens com nomes brasileiros, vivendo no Rio real, com brutalidade e dignidade dividindo o mesmo apartamento.

Álbum de Família (1946) foi a primeira peça explicitamente censurada de Nelson. O texto trata de incesto e violência em família com uma frontalidade que nenhum censor de 1946 poderia engolir. A peça foi proibida por anos e só estreou, ironicamente como obra de arte reconhecida, muito depois. Anjo Negro (1946) tem como protagonista Ismael, um homem negro que se casa com uma mulher branca e destrói todos os filhos mestiços que ela lhe dá, porque nenhum filho pode ser mais branco do que o pai. Nelson quis que a estreia em 1948 tivesse Abdias do Nascimento no papel de Ismael. O Teatro Municipal do Rio recusou, exigindo que o personagem fosse interpretado por um ator branco pintado de negro. A proibição, documentada por Abdias em sua "Carta Aberta" de protesto, é um dos episódios mais reveladores do racismo institucional no teatro brasileiro.

Nas tragédias cariocas, Nelson encontrou sua linguagem mais popular e duradoura. A Falecida (1953) conta a história de Zulmira, uma mulher doente que sonha com um enterro luxuoso que o marido não tem condições de pagar, e que guarda um segredo capaz de destruir o que resta do casamento. Boca de Ouro (1959) é o retrato de um bicheiro do subúrbio carioca que manda colocar uma dentadura de ouro e vira mito vivo no bairro. A peça funciona como um estudo sobre como as histórias mudam cada vez que um narrador as conta, antecipando o que o cinema chamaria de "narrativa não-confiável". O Beijo no Asfalto (1961) começa com uma reportagem jornalística, Nelson sabia de perto como a imprensa transforma fatos em ficção, e vira um estudo sobre como a acusação pública destrói um homem inocente.

O paradoxo que todos os contemporâneos notaram, e que ninguém conseguiu explicar a contento, é o seguinte. Nelson Rodrigues era, na vida privada e nas crônicas políticas que escrevia para os jornais, um conservador fervoroso. Anticomunista declarado, apoiador do golpe militar de 1964, defensor da família tradicional, da religião e da moral burguesa que seu teatro sistematicamente destruía. O homem que chamava de "verme" seus detratores de esquerda era o mesmo que tinha escrito, com evidente paixão dramática, personagens que traem, incestuam, matam e desejam com uma liberdade que nenhum manifesto progressista conseguia imaginar com aquela intensidade. Sábato Magaldi tentou a explicação que mais durou: Nelson era conservador na superfície e subversivo nas profundezas, e sua obra teatral expressava o que o homem público não podia admitir.

Em 21 de dezembro de 1980, Nelson Rodrigues morreu de insuficiência cardiorrespiratória e trombose no Rio de Janeiro, aos 68 anos. Naquela mesma tarde, tinha acertado treze pontos na Loteria Esportiva num bolão com o irmão Augusto e alguns amigos do O Globo. Era, na plenitude da ironia rodriguiana, o tipo de detalhe que só poderia ter acontecido na vida dele.

Dramaturgia — Seleção de Obras

OBRAS DE NELSON RODRIGUES

1943Vestido de Noiva — peça psicológica em três planos simultâneos; marco do teatro moderno
1946Álbum de Família — incesto e violência doméstica; peça mítica. Censurada; estreou anos depois
1946Anjo Negro — protagonista negro; conflito racial e destruição. Abdias do Nascimento barrado pelo Municipal em 1948; estreou com ator branco pintado
1953A Falecida — Zulmira e o sonho do enterro perfeito; tragédia carioca de subúrbio
1959Boca de Ouro — o bicheiro como mito vivo; estudo sobre narrativa e lenda
1961O Beijo no Asfalto — acusação pública e destruição de um homem inocente; jornalismo como máquina de ficção
1962Bonitinha mas Ordinária — o contínuo entre o amor e a desonra; tragédia carioca
1965Toda Nudez Será Castigada — Geni a prostituta; o casamento como armadilha; traição e suicídio

A obra dramática completa de Nelson Rodrigues inclui 17 peças, além de romances, contos e décadas de crônicas jornalísticas diárias. Suas peças foram adaptadas ao cinema por Leon Hirszman, Arnaldo Jabor e Bruno Barreto, entre outros. Sábato Magaldi organizou a edição das obras completas em quatro volumes pela Nova Fronteira.

Nelson Rodrigues detestava ser chamado de "gênio" pelos críticos que o elogiavam. Preferia a alcunha de "anjo pornográfico", expressão que o biógrafo Ruy Castro usou como título do livro mais importante sobre sua vida (O Anjo Pornográfico, Companhia das Letras, 1992). A família de Nelson brigou publicamente com Ruy Castro após a publicação: a viúva e os filhos de um lado, as irmãs do outro, numa disputa sobre quais detalhes eram verídicos e quais eram exagero dramático. Ruy Castro respondeu que, tratando-se de Nelson Rodrigues, era impossível saber onde terminava o exagero e começava a realidade. E que essa incerteza era, na verdade, o maior elogio que se poderia fazer ao escritor.
São Paulo ·

Teatro Brasileiro de Comédia

O industrial italiano, os diretores europeus e o elenco mais brilhante da história do teatro brasileiro

Franco Zampari chegou ao Brasil em dezembro de 1922 a convite do amigo Ciccillo Matarazzo, sobrinho do magnata Francesco Matarazzo, para organizar a metalúrgica da família em São Paulo. Napolitano, engenheiro, tinha duas paixões: cinema e teatro. Em 1945, apresentou uma peça que ele mesmo tinha escrito, numa sala da própria casa, para um público de amigos da alta sociedade paulistana. Essa "brincadeira entre amigos" foi a semente que, três anos depois, floresceu numa das organizações teatrais mais importantes do século XX no Brasil.

No dia 11 de outubro de 1948, o Teatro Brasileiro de Comédia abriu as portas num sobrado reformado no Bixiga, na rua Major Diogo, com capacidade para 365 espectadores. A inauguração teve dois espetáculos: o monólogo La Voix Humaine, de Jean Cocteau, declamado em francês pela atriz Henriette Morineau, e a peça A Mulher do Próximo, de Abílio Pereira de Almeida, com uma jovem atriz de Santos chamada Cacilda Becker no elenco. Para criar a Sociedade Brasileira de Comédia que administraria o TBC na fase profissional, Zampari se associou a mais de duzentas famílias da elite paulistana. Era um teatro financiado pela oligarquia do café, construído por um imigrante italiano, inaugurado com um monólogo em francês. Mais paulistano, impossível.

Em 1949, Zampari percebeu que um teatro amador não se sustentaria financeiramente. Precisava de profissionais e de um diretor artístico com autoridade para moldar o conjunto. Contratou o italiano Adolfo Celi, formado na Academia de Arte Dramática de Roma, que chegou ao Brasil com um rigor e uma capacidade de trabalho que transformaram o TBC num laboratório. Celi instituiu algo que o teatro brasileiro ainda não conhecia sistematicamente: o ensaio como processo de investigação. Não era mais o ensaio para memorizar falas e marcar posições, mas o ensaio como descoberta do texto, da personagem e da relação entre os atores. Essa mudança de paradigma, por si só, justificaria a história do TBC.

O elenco que se formou ao redor do TBC ao longo dos anos 1950 é, coletivamente, o mais extraordinário da história do teatro nacional. Cacilda Becker ficou dez anos na companhia e Paulo Autran construiu ali a base de uma carreira de seis décadas. Tônia Carrero levou para o palco uma elegância e uma ferocidade que nenhum diretor tinha conseguido antes, enquanto Walmor Chagas se consolidava como o ator mais completo de sua geração. Fernanda Montenegro, que deixaria o TBC em 1959 para fundar o Teatro dos Sete com Sérgio Britto, desenvolveu na companhia a disciplina e o rigor técnico que atravessariam toda sua trajetória. Cleyde Yáconis, Sérgio Cardoso, Nydia Licia, Fernando Torres: cada um viria a ser, individualmente, um pilar do teatro e da televisão brasileiros. Nenhum deles, contudo, teria chegado a esse patamar sem o TBC.

A contradição fundamental do TBC foi a que acabou destruindo a companhia. Sendo financiado pela elite e dirigido inicialmente por europeus que conheciam a dramaturgia do Velho Mundo melhor do que a brasileira, o TBC privilegiou sistematicamente textos estrangeiros. Montavam clássicos europeus de Pirandello e Sófocles a Sartre e Tennessee Williams. Quando Gianfrancesco Guarnieri estreou Eles Não Usam Black-Tie no Teatro de Arena em 1958, e a peça ficou mais de um ano em cartaz com uma história de operários paulistas em greve, a diferença ficou escancarada. Havia um público enorme sedento por teatro que retratasse o Brasil real, e o TBC estava montando clássicos europeus. A crise do TBC nos anos finais não foi apenas financeira: foi a crise de um projeto cultural que tinha apostado na importação quando o público pedia produção própria.

Franco Zampari morreu em 1966, dois anos após o fechamento da companhia. O teatro continuou funcionando de forma independente até 2008, quando fechou as portas. O prédio foi tombado em 1982 pelo Condephaat como patrimônio histórico. Em 2022, a Funarte assinou um acordo com o SESC São Paulo para sua reabertura e restauração.

Nydia Licia foi a razão pela qual Cacilda Becker se tornou profissional. Na inauguração do TBC em outubro de 1948, a atriz se recusou a interpretar um papel na peça A Mulher do Próximo porque não queria dizer a palavra "amante" em cena, muito menos beijar o ator na boca. Era uma questão de decoro. Cacilda, que era amadora e tinha 27 anos, aceitou o papel sem hesitar, mas exigiu que a contratassem como atriz profissional. Foi o primeiro contrato de trabalho profissional de um ator em toda a história do teatro brasileiro.

Cacilda Becker

, Pirassununga (SP) — , São Paulo

FormaçãoTeatro do Estudante do Brasil (Rio), Grupo Universitário de Teatro de São Paulo (GUT), Os Comediantes, TBC
No TBC10 anos (1948–1958). Peças com Ziembinski, Adolfo Celi, Flamínio Bollini. Maria Stuart contra a irmã Cleyde Yáconis (1955) — considerado por críticos o duelo de atrizes mais eletrizante da história
Companhia própriaTeatro Cacilda Becker (TCB), fundado em 1958 com Walmor Chagas, Ziembinski e Cleyde Yáconis. 26 espetáculos em 11 anos
Morte6 de maio de 1969 — sofreu derrame cerebral no intervalo do primeiro ato de Esperando Godot de Beckett (Flávio Rangel, dir.), ao lado de Walmor Chagas e do filho Luís Carlos. Saiu do palco ainda com o figurino do clown Estragon. Morreu 39 dias depois, em coma. Tinha 48 anos
Drummond"A morte emendou a gramática. Morreram Cacilda Becker. Não era uma só. Eram tantas." — Carlos Drummond de Andrade

Ela foi sendo levada pela plateia com o braço caído e eu me lembro que a mão, os dedos dela iam esbarrando pelas cadeiras. Era como se ela estivesse tentando se segurar ou se despedir daquele lugar.

— Marília Pêra (1943–2015), atriz, sobre a saída de Cacilda Becker do palco em 6 de maio de 1969
São Paulo ·

Teatro de Arena

O palco circular, Augusto Boal e a nacionalização do teatro brasileiro

O Teatro de Arena nasceu de uma ideia quase modestamente prática: um teatro sem cenário precisava de muito menos dinheiro do que um teatro com cenário. O jovem ator e diretor José Renato Pécora, formado pela primeira turma da Escola de Arte Dramática de São Paulo em 1951, tinha ouvido falar do modelo norte-americano de arena, o palco circular cercado de todos os lados pela plateia. Calculou que sem cenários, sem coxias elaboradas, sem proscênio, uma companhia poderia fazer teatro profissional com os recursos que um grupo amador tinha disponível. Nos primeiros anos, o Arena se apresentou em clubes, fábricas, salões e ambientes improvisados. A sede da rua Teodoro Baima, no centro de São Paulo, só foi inaugurada no final de 1953.

A decisão artística que definiu o Arena, e que o tornou muito mais do que uma solução econômica, foi a contratação de Augusto Boal em 1956. Boal tinha cursado dramaturgia em Nova York e conhecia os escritos de Stanislavski através do Actor's Studio americano. Sua chegada trouxe para o Arena um rigor metodológico e um posicionamento político de esquerda que transformaram o grupo de uma companhia de repertório eclético numa organização cultural com programa definido. Também trouxe, pela fusão com o Teatro Paulista dos Estudantes, um elenco de jovens atores que incluía Gianfrancesco Guarnieri, Oduvaldo Vianna Filho (o "Vianninha"), Milton Gonçalves, Flávio Migliaccio e Vera Gertel.

Em 1957, o Arena estava à beira do colapso financeiro. Boal tinha encenado peças de qualidade, entre elas Juno e o Pavão, de Sean O'Casey, mas o público não comparecia em número suficiente para pagar as contas. A companhia estava prestes a fechar. Então Boal, no desespero, sugeriu que montassem uma peça escrita por um dos atores do elenco, Marido Magro, Mulher Chata, do próprio Boal, para economizar os direitos autorais. A peça foi regular. Mas a ideia de montar textos da própria companhia abriu uma porta que ninguém tinha antecipado.

No dia 22 de fevereiro de 1958, o Arena estreou Eles Não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri, com direção de José Renato. Guarnieri tinha 23 anos. A peça narrava uma greve de metalúrgicos de São Paulo e o dilema de Tião, filho de Otávio, um militante sindical velho, que fura a greve para não perder o emprego e manter a namorada grávida, traindo o pai e a classe. Era a primeira vez que operários brasileiros eram protagonistas de uma tragédia séria no teatro nacional. Nada de figurantes ou personagens secundários ilustrando o "povo" visto de fora. Eram personagens completos, com vida interior, contradições, dignidade e covardia simultaneamente.

A peça ficou em cartaz por mais de um ano, uma das mais longas temporadas do teatro paulistano até aquele momento. Salvou o Arena financeiramente e inaugurou um período que Boal batizou de fase nacionalista. Entre 1958 e 1964, o Arena montou dezenas de peças brasileiras, criou o Seminário de Dramaturgia para revelar novos autores nacionais e se tornou o polo mais importante do teatro político na América do Sul.

O golpe militar de 1964 mudou tudo. As peças realistas de operários e camponeses que o Arena produzia foram proibidas pela censura. Boal e Guarnieri precisavam de uma nova linguagem, algo que driblasse a censura sem abandonar o conteúdo político. A saída foi o musical histórico. Arena Conta Zumbi (1965), com música de Edu Lobo, narrava a resistência do Quilombo dos Palmares. A censura não podia proibir que se cantasse sobre uma resistência do século XVII, mas todo espectador de 1965 entendia perfeitamente o que a resistência de Zumbi significava no Brasil da ditadura. O sistema coringa, desenvolvido para esse espetáculo, permitia que um grupo de sete atores encenasse uma história com dezenas de personagens. Cada ator intercambiava papéis sem avisar, rompendo qualquer identificação psicológica entre ator e personagem. Era Brecht levado ao limite.

Em março de 1971, Augusto Boal foi preso pelo DOPS, o Departamento de Ordem Política e Social, e submetido a torturas. Quando foi solto, partiu para o exílio, de onde não voltaria por vários anos. O Arena, sem Boal e com Guarnieri já desligado, encerrou as atividades em 1972. O espaço físico foi comprado pelo Serviço Nacional de Teatro em 1977 e hoje funciona como Teatro de Arena Eugênio Kusnet, mantendo o mesmo palco circular de 90 lugares onde tudo aconteceu.

Espetáculo — Peça Fundadora do Teatro Político Brasileiro

ELES NÃO USAM BLACK-TIE

DramaturgoGianfrancesco Guarnieri (1934–2006), 23 anos na estreia
DireçãoJosé Renato Pécora (1926–2011), fundador do Teatro de Arena
MúsicaAdoniran Barbosa — o sambista de São Paulo, voz da cultura suburbana paulistana
Elenco originalLélia Abramo, Eugênio Kusnet, Riva Nimitz, Milton Gonçalves, Flávio Migliaccio, Gianfrancesco Guarnieri
EnredoOtávio, militante sindical veterano, organiza greve em metalúrgica paulistana. O filho Tião fura a greve para não perder o emprego — e manter a namorada Maria grávida. O conflito entre gerações, lealdade de classe e sobrevivência individual é o núcleo trágico
ImpactoMais de um ano em cartaz; salvou o Arena da falência. Gerou o Seminário de Dramaturgia e a fase nacionalista da companhia. Adaptado ao cinema por Leon Hirszman em 1981

Foi na excursão carioca de Black-Tie que Oduvaldo Vianna Filho (o "Vianninha") e Milton Gonçalves deixaram o Arena para fundar, em 1961, os CPCs — Centros Populares de Cultura, ligados à UNE. A peça gerou mais do que aplausos: gerou uma geração inteira de criadores.

O nome "Eles Não Usam Black-Tie" sai de uma observação sociológica precisa. O black-tie, aquele smoking formal símbolo da classe que frequenta teatros como o TBC e vai a óperas no Municipal, é exatamente o que os operários da peça não usam e jamais usarão. A dicotomia não é só de vestuário, mas de acesso, de cidadania cultural, de quem o teatro brasileiro considerava digno de estar em cena como protagonista. Que essa peça tenha estreado no menor palco de São Paulo, num espaço sem cenário, com 90 lugares e atores mal pagos, não é irônico. É o ponto.
São Paulo ·

Teatro Oficina e Zé Celso

O grupo que explodiu o teatro brasileiro, sobreviveu à ditadura e lutou décadas por um terreno

Em 1958, um grupo de estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, aquele mesmo que formou tantas gerações de advogados e políticos brasileiros, fundou um grupo de teatro amador no Centro Acadêmico XI de Agosto. Entre os fundadores estavam José Celso Martinez Corrêa, Renato Borghi, Etty Fraser, Fauzi Arap, Amir Haddad e Carlos Queiroz Telles. Eram filhos da classe média paulistana, estudavam Direito e faziam teatro pela mesma razão que os jovens de sua geração faziam outras coisas: porque a arte parecia a única linguagem capaz de falar sobre o Brasil que estavam descobrindo.

José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, nasceu em Araraquara em 1937, filho de uma família de classe média do interior paulista. Chegou a São Paulo para estudar Direito sem nenhuma intenção declarada de se tornar o mais radical diretor teatral da história do Brasil. A intenção foi aparecendo no processo. O grupo experimentava, as convenções do teatro comercial iam parecendo insuficientes e o Brasil de 1960 ficava mais urgente e perigoso a cada dia.

Em 1961, o grupo se profissionalizou e se estabeleceu no Teatro Novos Comediantes da Rua Jaceguai, no Bixiga. Em 1963, Zé Celso dirigiu Os Pequenos Burgueses, de Máximo Gorki, num espetáculo realista rigoroso que foi recebido com entusiasmo pela crítica e permaneceu em cartaz por anos. Era o Oficina na fase mais próxima do teatro europeu tradicional, comprometido, inteligente, politicamente alinhado à esquerda e tecnicamente impecável. Mas ainda dentro das convenções do que o teatro poderia ser.

Em maio de 1966, um incêndio destruiu o teatro da Rua Jaceguai. Enquanto remontagens de peças antigas arrecadavam fundos para a reconstrução, Zé Celso e o grupo viajaram para o Rio de Janeiro e mergulharam em estudos: Brecht, Wilhelm Reich, filosofia marxista com Leandro Konder. Foi nesse momento que o crítico italiano Ruggero Jacobbi sugeriu a Renato Borghi que o grupo montasse uma peça obscura de Oswald de Andrade, escrita em 1933 e nunca encenada. Borghi levou a ideia a Zé Celso. A primeira reação foi de ceticismo: o texto lhe parecia "modernoso e futuristoide". Borghi organizou uma leitura no próprio apartamento. Zé Celso ouviu. E tudo mudou.

No dia 29 de setembro de 1967, o Teatro Oficina estreou O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, num teatro reconstruído e reformado à italiana, o que já era uma ironia no coração da ruptura. O espetáculo tinha Renato Borghi como Abelardo I, Dina Sfat como Heloísa de Lesbos, Othon Bastos e Otávio Augusto nos demais papéis. A cenografia era de Hélio Eichbauer, a mesma pessoa que tinha trabalhado em Cuba com os muralistas. As músicas foram compostas por Caetano Veloso e Rogério Duprat, dois artistas que naquele mesmo ano estavam gestando o Tropicalismo. A montagem era uma detonação. O ritmo acelerado de revista musical se misturava a personagens grotescos, a nudez virava gesto político e o imperialismo americano era satirizado com a precisão de um cirurgião e a impiedade de um carnavalesco.

A reação foi imediata e dividida. A crítica convencional ficou desconcertada. Os jovens artistas que estavam inventando o Tropicalismo reconheceram imediatamente o parentesco, com Caetano Veloso e Gilberto Gil indo ver a peça mais de uma vez. O crítico francês Bernard Dort, ao ver o espetáculo durante uma temporada em Paris em 1968, descreveu-o como "um teatro onde o massacre é encenado como apelo à insurreição". A ditadura proibiu a peça meses depois da estreia. O Oficina continuou.

Em 1968, o grupo encenou Roda Viva, de Chico Buarque, num espetáculo que extrapolou qualquer noção de divisão palco e plateia. Atores saíam pela plateia e tocavam nos espectadores de formas que muitos descreveram como agressivas. Em setembro de 1968, durante a temporada em Porto Alegre, o elenco foi agredido fisicamente no hotel onde estava hospedado por membros do CCC, o Comando de Caça aos Comunistas, grupo paramilitar ligado a setores da direita extrema. A peça foi censurada e o Oficina virou uma das organizações mais vigiadas pela ditadura.

Em setembro de 1974, Zé Celso foi preso pelo DOPS de São Paulo sem mandado e mantido por três semanas em isolamento, submetido a pressões que ele descreveria como tortura. A pressão da sociedade civil e da classe artística o libertou. Logo depois, partiu para o exílio. Primeiro em Portugal, onde vivenciou a Revolução dos Cravos e filmou o documentário O Parto. Depois em Moçambique, onde acompanhou a independência do país. Voltou ao Brasil em 1979, com a anistia.

Nos anos 1980 e 1990, o Oficina passou por transformações profundas. O prédio da Rua Jaceguai foi reformado de acordo com um projeto radical da arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, que concebeu o espaço como uma rua longa e estreita, sem distinção formal entre palco e plateia. Inaugurado em 1994, foi eleito pelo jornal britânico The Guardian em 2015 como o melhor projeto arquitetônico de teatro do mundo. A mesma publicação observou que o Oficina "tem ângulos de visão desafiadores, assentos duros e uma forma que é exatamente a que os teatros não deveriam ter, mas é tanto mais intenso precisamente por isso".

A última batalha de Zé Celso, travada por décadas e concluída postumamente, foi contra o Grupo Silvio Santos, que possuía o terreno vizinho ao Oficina e planejava construir três torres residenciais e comerciais que afetariam a iluminação natural do teatro tombado. Zé Celso denunciou o projeto em público, mobilizou artistas e ativistas, processou e resistiu. Em julho de 2024, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou a criação do Parque Municipal do Rio Bixiga no terreno disputado, uma vitória coletiva que chegou após mais de quarenta anos de luta.

José Celso Martinez Corrêa morreu em 6 de julho de 2023, em São Paulo, vítima de um incêndio em seu apartamento. Tinha 86 anos. O Teatro Oficina continua funcionando sob a direção de Marcelo Drummond, viúvo de Zé Celso.

O teatro é como o jornal, como a internet, porque a presença traz o corpo para o aqui e agora, e isso nenhuma outra arte tem. A arte é uma sacanagem antimessiânica em que você não espera as coisas acontecerem.

— José Celso Martinez Corrêa ("Zé Celso"), em entrevista concedida em 2021
Espetáculo — Marco do Tropicalismo Teatral

O REI DA VELA

DramaturgoOswald de Andrade (1890–1954) — escrita em 1933, publicada em 1937, estreada em 1967: 34 anos de espera
DireçãoJosé Celso Martinez Corrêa (Teatro Oficina, São Paulo)
ElencoRenato Borghi (Abelardo I), Dina Sfat (Heloísa de Lesbos), Othon Bastos, Otávio Augusto
CenografiaHelio Eichbauer
MúsicaCaetano Veloso e Rogério Duprat — no mesmo ano em que gestavam o Tropicalismo
PrêmiosPrêmio Molière e APCT — Melhor Direção (1967). Temporada em Paris (1968) — recepção europeia entusiasta
CensuraProibida meses após a estreia pela ditadura militar. Retornou ao cartaz com intervenção jurídica

A montagem é considerada o ato fundador do Tropicalismo teatral e um dos cinco espetáculos mais importantes da história do teatro brasileiro. O texto, escrito 34 anos antes, parecia ter sido escrito especificamente para o Brasil de 1967: a crise do imperialismo americano, a decadência da burguesia cafeeira, a violência das relações econômicas — tudo era atual.

A morte de Zé Celso em julho de 2023, num incêndio em seu próprio apartamento, foi descrita por amigos e companheiros como "uma morte teatral". No sentido de que era impossível imaginar uma saída mais dramática para alguém que tinha transformado o teatro em modo de vida total. O desfile da escola de samba Pérola Negra no Carnaval de São Paulo de março de 2025 foi inteiramente dedicado à sua trajetória, com 30 alas e alegorias que percorriam desde a fundação do Oficina em 1958 até a luta pelo Parque do Rio Bixiga. O carnavalesco Sidnei França estruturou o desfile como uma grande peça teatral. Zé Celso tinha dito: "Quando eu morrer, eu quero ser devorado. Quero minhas vísceras entregues a algum ser canibal e artístico." A escola de samba atendeu o pedido.