A Belle Époque Teatral

A República, os Theatros Municipais e a euforia do café com leite

No dia 14 de julho de — data escolhida não por acaso, sendo o aniversário da queda da Bastilha — o presidente Nilo Peçanha inaugurou o Theatro Municipal do Rio de Janeiro diante de uma plateia composta exclusivamente por convites. Não havia venda de bilhetes para a primeira noite. Havia listas. A distinção entre quem estava dentro e quem ficava do lado de fora era, desde a fundação, o princípio organizador do lugar.

O edifício era uma demonstração explícita de poder. Construído sobre 1.180 estacas de madeira de lei enterradas no lençol freático da Cinelândia, modelado diretamente sobre a Ópera de Paris de Charles Garnier, decorado por Eliseu Visconti, Rodolfo Amoedo e pelos irmãos Bernardelli, com mosaicos e vitrais executados por artesãos europeus especialmente recrutados para a obra — o Municipal custou, segundo o lore da época, o equivalente a 3% de toda a arrecadação da União no ano de sua conclusão. Essa cifra, verdadeira ou não, circulou por décadas com a precisão das lendas: ela dizia algo sobre o que o Brasil oligárquico considerava digno de investimento nacional.

A reforma que criou o Municipal foi a reforma Pereira Passos, iniciada em , que remodelou o centro do Rio de Janeiro à semelhança de Paris — largas avenidas, fachadas ecléticas, museus nacionais e a Biblioteca Nacional no mesmo quarteirão. Para abrir espaço para a Avenida Central (hoje Rio Branco), foram demolidos cortiços e habitações populares, empurrando a população mais pobre para os morros e para os subúrbios que cresciam sem qualquer planejamento. A reforma urbanizou o centro e desurbanizou os pobres. O Theatro Municipal foi, nesse sentido, o ornamento final de uma operação política que usou o embelezamento como instrumento de exclusão.

Em seus primeiros anos, o Municipal recebia quase exclusivamente companhias de ópera e balé vindas da Itália e da França. Não havia companhia brasileira capaz de ocupar aquele palco com a regularidade exigida. Caruso passou pelo Municipal. Sarah Bernhardt passou pelo Municipal. Arturo Toscanini passou pelo Municipal. O teatro era uma janela aberta para a Europa — mas uma janela voltada para um interior que quase ninguém via, já que as temporadas eram frequentadas pelas famílias da oligarquia cafeeira e pela diplomacia. Havia a questão do vestuário: traje de rigor era exigido para os andares superiores. A "plateia baixa" admitia roupas um pouco menos formais, mas o conceito de "um pouco menos formal" em 1910 ainda excluía a grande maioria da população do Rio.

Dois anos depois, em , São Paulo inaugurou seu próprio Theatro Municipal — projeto do arquiteto Ramos de Azevedo, no mesmo estilo eclético e com capacidade para plateias seletas. O teatro paulistano nasceu com a marca do café: foi o dinheiro das famílias ligadas à exportação de café que financiou sua construção e que preencheu suas primeiras plateias. A Semana de Arte Moderna de seria realizada justamente naquele teatro — e há uma ironia profunda nisso: a mais radical ruptura estética da história cultural brasileira aconteceu dentro do templo mais conservador da belle époque paulistana, paga por mecenas que mal sabiam o que estavam financiando.

Mas enquanto a elite aplaudia Verdi e Puccini nesses palácios dourés, havia outro teatro acontecendo fora deles — e esse teatro era muito mais vivo. Nos subúrbios do Rio e de São Paulo, nos circos-teatro que percorriam o interior do país, nos cabarés da Lapa e da Boca do Lixo, nos salões improvisados de Pinheiros e de Madureira, uma cultura dramática popular fervilhava. Os teatros de revista — com suas vedetes, suas paródias políticas, seus números musicais cheios de maxixe e choro — lotavam casas muito menores, com ingressos acessíveis, diante de plateias que riam alto e assobiavam durante o espetáculo. Esse era o teatro do povo. E, como sempre ocorre com o teatro do povo, a história oficial demorou décadas para considerá-lo digno de menção.

O paradoxo da Belle Époque teatral brasileira é que o teatro que duraria — o que produziria linguagem, memória, técnica — estava acontecendo nas margens, não no centro. O Theatro Municipal do Rio de Janeiro foi restaurado em , depois em , depois em , recebendo 219.000 folhas de ouro na última grande reforma. Os teatros de subúrbio foram demolidos ou transformados em igrejas neopentecostais. O que sobreviveu da belle époque foi a fachada dos poderosos. O que alimentou o teatro brasileiro foi o que acontecia embaixo e por volta das fachadas.

Em 2008, durante a restauração do Municipal do Rio, um técnico de eletricidade encontrou atrás de uma parede um enorme painel de 3 por 16 metros, pintado em 1907 pelo italiano Eliseu Visconti — uma obra de valor incalculável que permanecera oculta desde a última restauração em 1935. O mesmo Municipal que foi construído como uma declaração de modernidade guardava, literalmente enterrado dentro de suas paredes, tesouros que ninguém via.
Edifício / Instituição Inaugurado em

Theatro Municipal do Rio de Janeiro

LocalizaçãoCinelândia, Centro do Rio de Janeiro
ProjetoFrancisco de Oliveira Passos + Albert Guilbert (fusão de dois projetos empatados); inspiração declarada na Ópera de Paris de Charles Garnier
Construção2 de janeiro de — 280 operários em dois turnos, sobre 1.180 estacas de madeira de lei no lençol freático
InauguraçãoPresidente Nilo Peçanha e prefeito Sousa Aguiar; capacidade original: 1.739 espectadores
PolêmicaO projeto vencedor era de Francisco de Oliveira Passos — filho do prefeito Pereira Passos. Denúncias de nepotismo e de que o projeto era, na verdade, da seção de arquitetura da Prefeitura agitaram a Câmara Municipal por meses
Artista lamentávelArthur Azevedo (1855–1908), dramaturgo que lutou por décadas nas páginas dos jornais pela construção do Municipal, morreu nove meses antes da inauguração

Em seus primórdios, apresentavam-se no teatro apenas companhias e orquestras estrangeiras. Somente em 1931 foi criada a Orquestra Sinfônica própria do Municipal. A escola de balé foi fundada em 1927 pela bailarina russa Maria Olenewa.

1829 — 1883 · Porto Alegre

Qorpo-Santo

O gênio que o Brasil não estava pronto para compreender

Há uma questão filosófica escondida dentro da história de Qorpo-Santo, e ela é mais perturbadora do que parece: o que acontece quando uma obra-prima aparece no lugar errado e na hora errada? Não com algumas décadas de atraso em relação à sua recepção — o que é comum na história da arte — mas com um século inteiro de silêncio? Quando os contemporâneos de um gênio não apenas não o reconhecem, mas o consideram clinicamente louco, a ponto de interditá-lo judicialmente, retirando-lhe a capacidade civil de administrar sua própria vida?

José Joaquim de Campos Leão nasceu em na Vila do Triunfo, interior do Rio Grande do Sul. Mudou-se para Porto Alegre ainda jovem, ficou órfão de pai cedo, estudou gramática, habilitou-se ao magistério, casou-se em , mudou-se com a família para Alegrete, onde fundou um colégio, tornou-se professor respeitado, vereador, delegado de polícia, comerciante de médio sucesso. Era, por todos os critérios externos disponíveis, um pequeno-burguês conservador da província gaúcha — monarquista fervoroso, religioso à sua maneira, homem de posições firmes e pouco interessado em subversão.

Então, por volta de , algo mudou. O que exatamente aconteceu é, nas palavras do pesquisador Flávio Aguiar, "um capítulo obscuro na sua biografia". Uma versão, transmitida de geração em geração entre os estudiosos de sua obra, afirma que Qorpo-Santo teria sido espancado na cabeça por dois homens numa rua de Porto Alegre — e que o trauma físico teria liberado, ou destruído, algo no interior de sua mente. Não há como saber. O que os documentos mostram é que, a partir daquele momento, ele começou a escrever compulsivamente. Jornais, cartas, manifestos, propostas de reforma ortográfica da língua portuguesa, receitas culinárias, máximas filosóficas, confissões. E peças de teatro. Muitas peças de teatro.

Sua família — encabeçada pela esposa, Inácia de Campos Leão — entrou com um processo judicial de interdição por "monomania", que o tribunal local aceitou em . A acusação era precisa: "superexcitação de atividade cerebral" manifestada sobretudo pela compulsão de "tudo escrever". Qorpo-Santo perdeu seus direitos civis. Perdeu seus bens. Perdeu o acesso à família. Foi suspenso do cargo de professor. Recorreu ao Rio de Janeiro, onde passou um mês internado no Hospício Pedro II — e os médicos da capital, ao contrário dos do interior gaúcho, não ratificaram o diagnóstico de loucura. O laudo era saudável. O juiz de Porto Alegre ignorou o laudo. A interdição permaneceu.

Foi nesse estado — juridicamente interditado como louco, medicamente declarado são, privado dos bens e da família — que Qorpo-Santo escreveu suas dezessete comédias. E escreveu-as em velocidade impossível. Apenas no mês de maio de , ele escreveu oito peças. Em alguns dias, escreveu duas. Em outros, uma peça completa em duas ou três horas, "ao correr de pena", como ele mesmo descrevia. O investigador Guilhermino César, ao reconstituir o cronograma de escrita em , ficou desconcertado: a quantidade seria extraordinária para qualquer dramaturgo em plena saúde e com toda a liberdade do mundo. Para um homem juridicamente incapaz, sem recursos, isolado do convívio intelectual — era inexplicável.

Em , Qorpo-Santo fundou a própria tipografia e imprimiu, às suas custas, a Ensiqlopédia ou Seis Mezes de Huma Enfermidade — obra em nove volumes que reunia poemas, confissões, receitas culinárias, máximas, a proposta de reforma ortográfica que lhe dera o nome literário (a grafia "Qorpo" em lugar de "Corpo" era sua), e as dezessete peças teatrais. A grafia da palavra "Ensiqlopédia" não era erro de impressão: era programa. Qorpo-Santo propunha substituir o "c" pelo "q" em toda a língua portuguesa, e defendia sua proposta em artigos de jornal com a seriedade de um linguista acadêmico. O mundo não ligou.

Qorpo-Santo morreu em , aos 53 anos, em Porto Alegre. Morreu interditado. Morreu sem que nenhuma de suas peças houvesse sido lida por ninguém além de algumas pessoas no Rio Grande do Sul. Seus livros permaneceram em caixas, em bibliotecas particulares de famílias locais, esquecidos com a completude que só o esquecimento provincial sabe produzir.

As minhas obras quási só eu as entendo; tantas foram as inutilidades por mim suprimidas! Acho porém cedo para que desde já se faça tanto!

— Qorpo-Santo, em nota manuscrita preservada nos arquivos do Rio Grande do Sul

O que há nessas dezessete comédias que espantou tanto os pesquisadores dos anos 1960 a ponto de Yan Michalski — então o maior crítico de teatro brasileiro, colunista do Jornal do Brasil — escrever que a descoberta de Qorpo-Santo "tornava parcialmente obsoletos todos os livros de história da dramaturgia brasileira"?

As peças de Qorpo-Santo funcionam por princípios dramatúrgicos radicalmente distintos de tudo que era produzido no Brasil ou em qualquer outro lugar naquele período. Primeiro: as personagens não têm identidade estável. Um homem pode ser, em atos diferentes da mesma peça, pessoas completamente distintas — com nomes diferentes, comportamentos opostos, histórias que se contradizem. Isso não é descuido narrativo; é método. Segundo: a lógica de causa e efeito está deliberadamente quebrada. Eventos acontecem sem motivação. Personagens entram e saem sem razão dramática. Conversas terminam no meio, sem resolução, sem moral. Terceiro: as rubricas — as instruções cênicas — são com frequência tão estranhas quanto o texto. Ao final do terceiro ato de As Relações Naturais (1866), Qorpo-Santo escreve: "Milhares de luzes descem e ocupam o espaço do cenário". É uma instrução tecnicamente impossível para os recursos teatrais do século XIX. É uma instrução que pressupõe uma linguagem cênica que não seria inventada por mais um século.

Em A Separação de Dois Esposos, a peça termina com um diálogo entre Tatu e Tamanduá — o que alguns pesquisadores identificaram como o primeiro casal gay da dramaturgia brasileira. Em As Relações Naturais, há cenas em bordel e insinuações de incesto tratadas com a mesma leveza cômica de uma situação doméstica banal. Em Um Assovio, a trama principal se dissolve num delírio de personagens que ateiam fogo ao cenário e soltam ratos no palco. O próprio Qorpo-Santo, vale notar, era um conservador fervoroso. O monarquista José Joaquim de Campos Leão, na vida, defendia a família, a religião e a propriedade. O Qorpo-Santo das peças destruía a família, subvertia a religião e tornava a propriedade absurda. A escrita era a válvula — a única saída para tudo que o homem público reprimia.

Quando os estudiosos gaúchos, em meados dos anos 1960, encontraram os livros da Ensiqlopédia numa biblioteca particular em Porto Alegre — preservados por acaso, não por nenhuma intenção arquivística — a reação foi de choque genuíno. A primeira encenação de peças de Qorpo-Santo aconteceu em , no Teatro do Clube de Cultura de Porto Alegre, dirigida por Antônio Carlos de Sena: exatamente cem anos depois de elas terem sido escritas. Nos anos seguintes, Antunes Filho — um dos maiores diretores teatrais brasileiros do século XX — montou Qorpo-Santo com o rigor e a devoção que se dedica aos clássicos reconhecidos. Era isso que ele era: um clássico que o país não havia lido.

A questão que a história de Qorpo-Santo coloca — e que não tem resposta satisfatória — é estrutural: quantos Qorpo-Santos existiram em outros países, em outros contextos, e não tiveram nem a sorte de ter seus livros guardados por acaso numa biblioteca particular? A obra de Qorpo-Santo sobreviveu por contingência. Pela inércia de famílias que não jogaram as caixas fora. Pelo interesse de um estudioso que aceitou um convite para visitar uma biblioteca num sábado à tarde. Se qualquer um desses acidentes não houvesse acontecido, a história do teatro brasileiro — e, de acordo com Michalski, a história do Teatro do Absurdo no mundo — teria uma lacuna que jamais saberia que era lacuna.

Qorpo-Santo

José Joaquim de Campos Leão · , Triunfo (RS) — , Porto Alegre (RS)

ProfissõesProfessor, comerciante, vereador, delegado de polícia, tipógrafo, dramaturgo, jornalista, reformador ortográfico autodesignado
Peças17 comédias, todas escritas em 1866. Publicadas em 1877 na Ensiqlopédia ou Seis Mezes de Huma Enfermidade (9 volumes)
InterdiçãoProcesso de interdição por "monomania" movido pela própria esposa (1862). Médicos do Rio de Janeiro declararam-no são; o juiz de Porto Alegre manteve a interdição. Permaneceu interditado até a morte
RedescobertaAnos 1960 — Guilhermino César (organizador), Yan Michalski (crítico), Antunes Filho (encenador). Primeira montagem: Clube de Cultura de Porto Alegre, 1966
ClassificaçãoPrecursor do Teatro do Absurdo (Ionesco, Beckett) segundo Michalski; precursor do Surrealismo (Breton, Duchamp) segundo pesquisadores posteriores. A discussão continua
O casal gay de A Separação de Dois Esposos (1866) — Tatu e Tamanduá — é identificado por pesquisadores contemporâneos como o primeiro casal homoafetivo da dramaturgia brasileira. Qorpo-Santo escreveu o diálogo entre os dois com a mesma naturalidade cômica de qualquer outro par em sua obra: sem estranhamento, sem moralização, sem o peso da questão. Que um homem conservador, monarquista e devoto do século XIX tenha escrito isso — cem anos antes do movimento de direitos LGBTQ+ — é uma das muitas contradições que tornam sua obra impossível de reduzir a uma única interpretação.

Outro acontecimento que ficará na história: o Teatro do Clube de Cultura de Porto Alegre revela pela primeira vez, numa modesta mas convincente montagem, a insólita obra de Qorpo-Santo — um inédito e desconhecido autor gaúcho que em 1866 escrevera uma série de pequenas comédias capazes de transformá-lo num revolucionário precursor do teatro do absurdo, ou fazê-lo aparecer como um louco de hospício, que é como ele foi considerado pelos seus contemporâneos.

— Yan Michalski, crítico teatral do Jornal do Brasil, após a primeira encenação de Qorpo-Santo, 1968
— A Revolução que o Teatro Não Fez

A Semana de 1922 e a Resistência do Palco

Entre os dias 13 e 17 de fevereiro de , no Theatro Municipal de São Paulo — o mesmo palco construído para a elite oligárquica — um grupo de artistas provocou o escândalo cultural mais significativo da história brasileira. As telas expressionistas de Anita Malfatti foram expostas no saguão. Villa-Lobos subiu ao palco com um pé num sapato e outro num chinelo — o público vaiou pensando que era gesto futurista; era apenas um calo no pé. Oswald de Andrade mal conseguiu ler um trecho de romance diante das vaias. O público da elite paulista assoviou, pateou e gritou durante todos os três dias do evento. A arte moderna havia chegado ao Brasil pela porta dos fundos e pelas vaias.

A Semana transformou a literatura, a música, as artes plásticas e a arquitetura brasileiras de forma irreversível, produzindo na década seguinte uma floração de revistas, manifestos e novas estéticas que ainda alimentam a cultura do país. Mas o teatro — a arte que havia hospedado a Semana, que havia cedido seu palco para o escândalo — permaneceu essencialmente imune à revolução que se passava dentro de suas paredes. Essa é a paradoxo central desta seção.

O teatro é, entre todas as artes, a mais refratária à ruptura estética. A razão é estrutural: ele depende de dinheiro muito antes de chegar ao público. Um poeta modernista pode escrever num caderno às três da manhã, sem custo algum. Um pintor precisa de tela, tinta e uma exposição. Mas um dramaturgo precisa de um diretor, de atores, de um espaço, de figurinos, de iluminação, de uma empresa produtora disposta a correr o risco — e, no Brasil de 1922, todas essas instâncias eram controladas por companhias que dependiam de agradar ao mesmo público que havia vaiado a Semana. O teatro de 1922 era um negócio antes de ser uma arte. E o público-pagador não estava interessado em Ionesco avant la lettre.

A resistência do teatro ao modernismo não foi ideológica — foi econômica. As companhias teatrais que dominavam o circuito comercial nas décadas de 1920 e 1930 produziam comédias de costume, dramas burgueses bem comportados e revistas musicais. Era o que o público queria. Era o que gerava receita. O modernismo — com sua fragmentação narrativa, sua recusa do desfecho moral, sua desconfiança do verossímil — não tinha público identificável. Não havia bilheteria para o absurdo.

O dramaturgo mais radical dos anos 1920 e 1930 — Oswald de Andrade — escreveu peças que nenhuma companhia aceitou montar. A primeira vez que O Rei da Vela chegaria a um palco seria em , trinta e quatro anos após ser escrita. O teatro brasileiro esperaria até a criação do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), em , para ter uma companhia disposta a experimentar sistematicamente formas novas. E esperaria até o Teatro de Arena, o Teatro Oficina e o Teatro Experimental do Negro — todos fundados nas décadas de 1940, 1950 e 1960 — para que o projeto estético da Semana de 1922 encontrasse sua linguagem cênica correspondente.

Ou seja: a revolução que a Semana de 22 iniciou demorou quarenta anos para chegar ao teatro. Não porque os dramaturgos fossem menos ousados que os poetas ou os pintores — Oswald e Qorpo-Santo (redescoberto nos anos 60) provam que não eram. Mas porque o teatro é uma arte coletiva, industrial e social de uma forma que a pintura ou a poesia jamais são. Para mudar o teatro, não basta mudar o texto. É preciso mudar o conjunto inteiro — o produtor, o diretor, os atores, o espaço e, acima de tudo, o público. E isso levou gerações.

A Semana de Arte Moderna foi financiada, em grande parte, por membros da elite paulista ligados ao café — entre eles Paulo Prado, descrito por Mário de Andrade como "o fautor verdadeiro da Semana". A ironia é precisa: a revolução estética que propunha ruptura com o academicismo europeu e a redescoberta de uma arte genuinamente brasileira foi bancada pelo dinheiro do mesmo café exportado para a Europa e pelos descendentes das famílias que tinham construído o Theatro Municipal para aplaudir a Ópera Garnier. O escândalo aconteceu com patrocínio da ordem que ele queria subverter.
· São Paulo

Oswald de Andrade Dramaturgo

A Trilogia da Devoração e as peças que esperaram trinta anos por um palco

Quando José Celso Martinez Corrêa — o futuro diretor mais radical do teatro brasileiro — recebeu, em , a sugestão de ler uma peça chamada O Rei da Vela, escrita por Oswald de Andrade em e publicada em , sua reação inicial foi desconfiança. O texto lhe parecia, nas suas próprias palavras, "modernoso e futuristoide". Estava errado. Quando o Teatro Oficina estreou a peça em , a reação foi de choque coletivo: a plateia descobriu que havia um teatro antes não visto em língua portuguesa esperando por ela há trinta anos, escrito por alguém que havia morrido em sem que nenhuma de suas peças houvesse chegado a um palco.

A trajetória dramatúrgica de Oswald de Andrade é, estruturalmente, semelhante à de Qorpo-Santo: um escritor muito à frente do contexto em que vivia, cuja obra teatral só seria reconhecida quando o sistema produtivo e o público estivessem prontos para recebê-la. A diferença é que Oswald era famoso — era o enfant terrible do modernismo paulista, coautor do Manifesto Antropofágico de , figura central da Semana de 22, amigo de Picasso e de Blaise Cendrars. Seu teatro não foi ignorado por anonimato. Foi ignorado porque os produtores de sua época o consideravam inencenável.

O Rei da Vela (escrita em , publicada em ) é a peça central de uma trilogia que Oswald chamou de Trilogia da Devoração, completada por O Homem e o Cavalo () e A Morta (). O trio constitui uma meditação feroz sobre o Brasil como país subdesenvolvido e dependente — devorado pelo imperialismo externo e pela classe dominante interna com igual voracidade.

Em O Rei da Vela, o protagonista é Abelardo I, um agiota paulistano que vende velas num Brasil às escuras — literal e metaforicamente. O país retratado é o da crise de , da agonia do café, da entrada agressiva do capital norte-americano e da decadência de uma aristocracia rural que vende suas filhas em casamento para pagar dívidas. O personagem americano, Mr. Jones, é tratado como um bárbaro elegante — superior em poder econômico, inferior em toda outra dimensão humana — e Oswald o apresenta sem pudor como o predador que ele é. A peça satiriza a burguesia, a aristocracia, o imperialismo e a própria plateia que vai ao teatro se reconhecer, tudo ao mesmo tempo, com uma crueza que as companhias dos anos 1930 simplesmente não tinham coragem de colocar em cena.

A chave para entender por que essas peças esperaram décadas por um palco está no Manifesto Antropofágico de 1928, cujo conceito central é a devoração: devorar a cultura europeia e transformá-la em algo genuinamente brasileiro, como os índios Tupinambás que comiam os inimigos para se apropriar de sua força. Para Oswald, o teatro devia fazer o mesmo com a própria tradição dramatúrgica — devorar o drama burguês, a tragédia clássica, a comédia de costumes, e devolvê-los ao público como algo irreconhecível, crítico, indigesto. Era um programa estético que exigia diretores dispostos a correr o risco. E esses diretores só apareceriam na geração de José Celso, Augusto Boal e Antunes Filho.

Quando O Rei da Vela foi ao palco em 1967, atravessando o Brasil às vésperas do AI-5, com elenco incluindo Dina Sfat e Renato Borghi, com cenografia de Helio Eichbauer e música de Caetano Veloso e Rogério Duprat — o espetáculo foi imediatamente identificado como o marco fundador do tropicalismo teatral. O crítico francês Bernard Dort, ao ver a peça durante uma temporada em Paris em , escreveu que o Teatro Oficina havia encontrado uma forma de teatro em que o "massacre" político e estético era encenado como apelo à insurreição. Era, em suma, tudo que Oswald havia escrito em — com trinta e quatro anos de atraso.

Peça Teatral — Trilogia da Devoração, I Escrita · Publicada · Estreada

O Rei da Vela

DramaturgoOswald de Andrade (1890–1954)
EnredoAbelardo I, agiota paulistano, enriquece no vácuo da crise de 1929. Negocia o casamento com Heloísa de Lesbos, filha de fazendeiro falido. Enfrenta Mr. Jones, o capital americano personificado. Satira feroz da burguesia, da aristocracia rural em declínio e do imperialismo
1ª MontagemTeatro Oficina, São Paulo. Direção: José Celso Martinez Corrêa. Assistente: Frei Betto. Elenco: Dina Sfat (Heloísa), Renato Borghi (Abelardo I). Cenografia: Helio Eichbauer. Música: Caetano Veloso, Rogério Duprat
RecepçãoPrêmio Molière e APCT — Melhor Direção. Excursão para Paris em 1968 — recepção crítica europeia entusiasmada. Considerada marco fundador do Tropicalismo no teatro

A demora de 34 anos entre a escrita e a primeira encenação não foi censura formal — nenhum órgão proibiu a peça. Foi a recusa do mercado teatral de sua época em correr o risco de uma obra sem moldes conhecidos. O mesmo destino tiveram as outras duas peças da trilogia: O Homem e o Cavalo (1934) e A Morta (1937).

— O Teatro que o Brasil Precisava

Teatro Experimental do Negro

Abdias do Nascimento e a ruptura com a invisibilidade racial no palco brasileiro

Em , Abdias do Nascimento foi a Lima, no Peru, assistir a uma montagem de O Imperador Jones, do dramaturgo norte-americano Eugene O'Neill — uma peça cujo protagonista é um homem negro que governou uma ilha do Caribe. Na montagem peruana, o papel principal era interpretado pelo argentino Hugo D'Evieri, com o rosto pintado de preto. Abdias saiu do teatro e nunca esqueceu. Três anos depois, de volta ao Brasil, fundou o Teatro Experimental do Negro.

A data oficial de fundação do TEN é . O Brasil estava em guerra — havia enviado 25 mil soldados para a Itália como parte da Força Expedicionária Brasileira, e discursava amplamente sobre liberdade, democracia e resistência ao fascismo. Ao mesmo tempo, o teatro brasileiro continuava a praticar, sem nenhum constrangimento, a mesma segregação racial que os soldados brasileiros iam combater na Europa. Atores negros não existiam nas companhias profissionais. Papéis de personagens negros eram dados a atores brancos pintados de preto. Quando uma peça precisava de figurantes negros para compor um cenário — uma senzala, um mercado de escravos, um quilombo — eles eram contratados como mão de obra temporária, descartável, sem nome nos programas.

O TEN nasceu com uma proposta que ia muito além do teatro. Seu primeiro elenco foi recrutado entre operários, empregadas domésticas, moradores de favelas, modestos funcionários públicos e desempregados — pessoas que nunca haviam pisado num palco profissional e, em muitos casos, que tinham pouca ou nenhuma escolaridade formal. O TEN oferecia, antes de ensaiar, aulas de alfabetização e de cultura geral. Formar o cidadão era a condição prévia para formar o ator. Era um projeto político disfarçado — ou melhor, um projeto político assumido — dentro da embalagem de uma companhia teatral.

Quando o TEN buscou uma peça para estrear, descobriu um problema que deveria ser óbvio mas que nunca havia sido articulado com tanta clareza: não havia, na dramaturgia brasileira, textos que servissem aos seus propósitos. Não havia peças com protagonistas negros que não fossem escravos ou serventes. Não havia personagens negros com vida interior dramática plena — amor, ambição, tragédia, comédia — sem que a raça fosse o único fator constitutivo da narrativa. O TEN não podia montar o repertório disponível porque esse repertório havia sido escrito por brancos, para plateias brancas, com personagens negros que existiam para ilustrar o olhar branco sobre o negro. A dramaturgia brasileira, em , era racialmente inapta para o que o TEN precisava.

A solução de Abdias foi ir buscar fora o que o Brasil não tinha. Ele descobriu O Imperador Jones — a mesma peça que havia visto em Lima com blackface — e escreveu pessoalmente ao Eugene O'Neill pedindo autorização para montá-la. O'Neill cedeu os direitos gratuitamente. O TEN ensaiou durante seis meses nas salas da União Nacional dos Estudantes (UNE), com aulas de interpretação ministradas pelo professor Ironildes Rodrigues. E em , o espetáculo estreou no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Era a primeira vez que o Theatro Municipal recebia um espetáculo composto integralmente por pessoas negras. Era também a primeira vez que um ator negro — Aguinaldo de Oliveira Camargo, no papel do protagonista — ocupava o centro daquele palco como herói de uma tragédia.

A plateia que compareceu à estreia incluía intelectuais, jornalistas e personalidades do meio artístico. Os elogios à atuação de Aguinaldo Camargo foram praticamente unânimes. Ruth de Souza, que também atuou no TEN desde seus primeiros anos, descreveria décadas depois o impacto daquelas primeiras temporadas: a sensação, para os atores, de estar fazendo algo que o Brasil não havia permitido antes — e a consciência de que essa proibição nunca havia sido declarada, nunca havia sido codificada em lei, mas havia sido real e completa. Era o racismo estrutural funcionando sem precisar de paredes visíveis.

Entre e , o TEN realizou mais de 20 espetáculos, com peças brasileiras e estrangeiras, encenando textos de Jorge Amado, Augusto Boal, Nelson Rodrigues e do próprio Abdias — além de encomendar ativamente novos textos de dramaturgos que quisessem escrever com protagonistas negros. O TEN publicou o jornal Quilombo (1948–1950), realizou concursos de beleza para mulheres negras em resposta aos concursos de Miss Brasil que excluíam candidatas negras, promoveu em o 1º Congresso do Negro Brasileiro e criou o projeto do Museu de Arte Negra. Era uma organização de ativismo cultural total, que usava o teatro como ponto de entrada para uma transformação muito mais ampla.

A acusação de "racismo às avessas" que o TEN recebeu de parte da imprensa quando montava peças com elenco integralmente negro é um capítulo à parte. Léa Garcia — que se tornaria uma das maiores atrizes do teatro e da televisão brasileira, formada pelo TEN — respondeu à acusação com uma frase que resume o absurdo da situação: havia, no Rio de Janeiro, dezenas de companhias teatrais compostas exclusivamente por atores brancos, encenando peças em que nenhum personagem negro existia, e ninguém as acusava de racismo. Quando o TEN fazia o oposto — colocava atores negros em cena com histórias de personagens negros — a acusação surgia imediatamente. A assimetria da indignação era, ela própria, a melhor ilustração do problema que o TEN havia nascido para combater.

Abdias do Nascimento ficaria com o TEN até . Em , após o AI-5, deixou o Brasil em exílio compulsório que duraria treze anos. O TEN, sem ele, encerrou suas atividades. Mas o que havia fundado — a ideia de que o teatro negro brasileiro era possível, legítimo e necessário — permaneceu vivo nas gerações seguintes: nos coletivos afro-brasileiros dos anos 1970 e 1980, nos grupos que hoje trabalham com dramaturgia negra contemporânea, e na obra de atores como Ruth de Souza e Léa Garcia, que abriram o caminho para tudo que veio depois.

Havia uma rejeição do negro como personagem e intérprete, e de sua vida própria, com peripécias específicas no campo sociocultural e religioso, como temática da nossa literatura dramática. O TEN nasceu para nomear esse vazio — e para preenchê-lo.

— Abdias do Nascimento, Teatro Experimental do Negro: Testemunhos (1966)
Companhia / Movimento Cultural · Rio de Janeiro

Teatro Experimental do Negro — TEN

FundadorAbdias do Nascimento (Franca, SP, 1914 — Rio de Janeiro, 2011)
Fundação13 de outubro de 1944, Rio de Janeiro
1º EspetáculoO Imperador Jones, de Eugene O'Neill — estreia em maio de 1945 no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Protagonista: Aguinaldo de Oliveira Camargo
Elenco fundadorAguinaldo Camargo, Wilson Tibério, Ruth de Souza, Léa Garcia, Marina Gonçalves, Arlinda Serafim, Teodorico Santos e outros — operários, domésticas, favelados, funcionários públicos
EspetáculosMais de 20 entre 1945 e 1958. Textos de O'Neill, Jorge Amado, Augusto Boal, Nelson Rodrigues, Lucio Cardoso, além de peças encomendadas especificamente para o TEN
Outras açõesJornal Quilombo (1948–50), concursos de beleza para mulheres negras, 1º Congresso do Negro Brasileiro (1950), projeto do Museu de Arte Negra, teleteatros na TV Tupi (1952–53)

O TEN foi impedido pelo governo brasileiro de participar do 1º Festival Mundial de Artes Negras no Senegal, em 1966. Abdias publicou a "Carta Aberta a Dacar" denunciando o critério discriminatório do Itamaraty — artigo publicado pela revista francesa Présence Africaine.

Abdias do Nascimento nasceu em Franca, interior de São Paulo — a mesma cidade cujo endereço consta nas informações de localização desta enciclopédia. O TEN foi fundado 56 anos após a abolição formal da escravidão no Brasil. Quando o primeiro espetáculo do TEN subiu ao palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1945, havia pessoas vivas que haviam nascido escravizadas.
◆ Página Especial da Enciclopédia